12 março 2007

Autopsia de uma Fé

EDUARDO ROSA PEDREIRA, é pastor da Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca, professor de Ética Corporativa da FGV e autor do livro Inveja e Contentamento pela Editora Mundo Cristão

Desde a década de 60 a Igreja Evangélica Brasileira viu nascer dentro de si um movimento que tem sido chamado de novo pentecostalismo. Como qualquer outro fenômeno humano, este também é um feixe complexo no qual se entrecruzam, além da dimensão religiosa, as sociais, políticas, psíquicas e econômicas.Apesar desta complexidade, é necessário que tentemos descrevê-lo, ainda que parcialmente.

O "apóstolo" Estevam Hernandes e sua esposa, a "bispa" Sônia, líderes da Igreja Renascer, são, em muitos aspectos, uma síntese deste movimento. Ressalte-se enfaticamente que nem todas as igrejas e pastores neopentecostais podem ser medidos pela maneira como este casal tem vivido e pregado sua fé.

Todavia, não se pode negar que o "apóstolo" e a "bispa" trazem em sua trajetória a marca que tem caracterizado boa parte do mundo neopentecostal:
- líderes com um enorme carisma, dissociado de caráter e
- líderes alimentados por uma teologia do consumo e da prosperidade.

O carisma de atrair multidões e saber lidar com elas faz do líder de qualquer organização uma pessoa muito poderosa, e na igreja não é diferente!

Isto porque um líder com forte carisma é capaz de seduzir seguidores a ultrapassar até mesmo os limites do razoável, pois o senso crítico de um grupo de pessoas diminui na proporção exata da incidência do carisma do líder sobre ele.

O caráter, por sua vez, é a fronteira do carisma. É através dele que se resiste às armadilhas do carisma. Então, quando um se desliga do outro, o líder perde o seu crítico interior, destrói seu superego, ficando ao sabor do ego inflado pelos resultados advindos de sua liderança carismática.

Esta equação daninha de carisma sem caráter somente se sustenta no contexto da fé por que
ganha contornos divinos. É a chamada teologia da prosperidade, que justifica diante dos fiéis os abusos financeiros de um estilo de vida socialmente nababesco vivido por muitos deles. Prega-se dentro desta visão teológica que Deus deseja que os seus filhos prosperem, por isso, eles devem ofertar ao máximo, pois fazendo assim serão recompensados. Ou no limite de suas angústias ou puramente interessadas numa barganha sobrenatural na qual a bênção de Deus é comprada mediante o dízimo, pessoas vão embarcando nesta que é a curto, médio e longo prazos, uma canoa teologicamente furada. Obviamente que não para os líderes carismáticos pregadores de tal teologia que, diga-se de passagem, são os únicos realmente a prosperar, numa medida de milhões de reais.

A rigor, o quadro até aqui descrito não é novo, sendo já conhecido e tratado pela grande mídia.

A novidade do presente momento fica por conta das denúncias do Ministério Público paulista, que qualificam uma igreja como organização criminosa e responsabilizam seus líderes por ações ilícitas.Estas denúncias em si mesmas, independentemente do seu desfecho, devem constituir uma séria advertência a todos de que a falta de caráter no âmbito da fé poderá trazer sérias implicações judiciais para aqueles que ultrapassem os limites legais. Sendo assim, a cadeia não pode ser encarada nem como punição divina e nem uma armação do diabo (como têm insinuado os líderes da Igreja Renascer), mas sim uma conseqüência natural que deve se abater sobre todos os infratores da lei.

Em tudo isso, é curioso notar que um outro apóstolo, Tiago (este sim sem aspas!) escreve na Bíblia que a fé sem obras é morta. O que ele não disse, mas implícito está, é que uma fé morre não apenas pela ausência de obras, mas pela qualidade delas e dos meios usados para produzi-las.

Portanto, uma fé sem ética está morta apesar dos muitos resultados. E, uma vez morta, só nos
resta fazer sua autópsia e torcer pelo seu breve sepultamento, para então renascerem líderes que, com integridade, cumpram sua missão amando a Deus e a este povo tão sofrido!

Fonte: http://amaivos.uol.com.br/templates/amaivos/amaivos07/noticia/noticia.asp?cod_Canal=51&cod_noticia=8092

7 comentários:

Josimar Salum disse...

A questão teológica (da prosperidade), no contexto do neopentecostalismo (com grande influência em todos os seguimentos evangélicos) deve ser analizada à luz das Escrituras, sem nenhuma pretensão ou pré-conceito, por cada um daqueles que têm a Palavra não somente como regra suprema de fé, mas de prática.

Josimar Salum

Pr. Wilson S. Bento disse...

Quando se define alguém como sendo "carismático" do ponto de vista teológico, vamos encontrar que seria alguém cheio da graça divina, o que então nos levaria a uma simples questão:

Estariam essas pessoas cheias da Graça do nosso Deus, mesmo praticando crimes sem nenhum constrangimento?

A avaliação feita pelo mundo dos seus atos os levará para a cadeia, e pela perspectiva cristã, onde deveriam estar eles?

Muitas pessoas que temem "tocar no ungido" nem sequer querem falar sobre o assunto, mas agora seria o momento ideal para que fosse tratada a questão da ética e da moral, tanto dos nossos púlpitos com dos bancos, ambos repletos de imoralidade e falta de ética.

Silenciar somente dará mais espaço para a secularização da igreja, parece que não queremos de olhar para a história da igreja e aprender com ela, a começar por Jesus que não deu espaço para a hipocrisia e a imoralidade, e seguimos com os pais da igreja que pagaram até mesmo com suas vidas para impedir o desmoronamento do bom conceito da igreja na sociedade.

Mas na nossa cultura cristã do século 21, isso não pode mais, temos que assistir a toda essa desmoralização da igreja, porque fomos treinados para sermos patéticos e acéfalos. Seres irracionais que só são desafiados a contribuir cegamente para um bando de "espertos" que enriquecem descaradamente, enquanto aguardamos que de algum lugar do espaço sideral alguma energia ou algum ser alienígena (porque Deus está longe disso tudo) sinta compaixão de nós.

A segunda reforma está chegando, só faltam os reformadores...e aí é que está o grande problema nosso!!!

Pr. Ary Freitas disse...

Amado:

Recebo seus artigos e informações e o considero como um servo do Deus vivo, aleluia!
Permita-me dessa vez discordar do seu artigo.
As questões teológicas da prosperidade é de fato um enfoque até então usual e tradicional que vem do ensino romano, a um novo entendimento dado pelo Espírito Santo. Em nada podemos nos opor por se tratar de revelações e manifestações espirituais, principalmente para quem tem e vive a Palavra como sua regra de vida e de fé.
Entendo que o apóstolo e a bispa tem carisma como tantos pregadores em todos os tempos; declarar como "dissociados de carater" é algo tremendamente forte e que requer sim um cuidado muito grande por estar se colocando servos de Deus em juizo. Confrontar com o Espírito Santo, o Mestre da Igreja,e dizer que este casal está alimentado por uma teologia de consumo e de prosperidade, é atitude de perigo.

Concordo que quem tem carisma atrai poder, e corre o risco de ultrapassar os limites do razoavel, mas que o carisma seja o oposto do carater, vai aí uma grande distorção. Quem tem carater pode ter carisma e vivenciar com estes dois maravilhosos instrumentos de sucesso. Conheço líderes que são carismáticos, fortes, firmes e não se deixam inflamar em seu ego.

A teologia da prosperidade, tão falada e criticada não é nada referente a caráter doente e carisma forte. Também conheço muitas igrejas que praticam essa teoria, crescem, ganham almas, conquistam vidas e nem por isso estão roubando as finanças de seus membros. Deus deseja sim que seus filhos prosperem, e é semeando que colhemos - mas não obrigatoriamente devemos ofertar o máximo, nem ir ao sacrifício para ser recompensado. A idéia de que se compra as bençãos com o dízimo é outra locubração romana, copiada pelas filhas da Meretriz, com tantas outros enganos como o natal, a negação da Ceia, etc. Será que estas teologias copiadas de Roma podem ser assumidas como a canoa sem furos? Me perdoe por questiona-lo, e saiba que o admiro e oro pela sua vida, sua família e seu ministério.

Na graça e na alegria daquEla que nos salvou e nos dá a alegria da salvação.


Pr. Ary Freitas

Kleber Lôpo disse...

Bom eu nao vejo que DEUS nos quer prospero mas, vejo também que DEUS nos quer como espelho de Cristo e vejo que ele não quer a nossa riqueza. Quanto a todos esses que se dizem "apostolos" pra mim não passam de mentirosos e que brincam com o fé das pessoas e fazem das igrejas um comercio! Se formos observar o que fazem vemos as mesmas coisas feitas pelas igrejas católicas na epoca da reforma potestante. Eles não vendem indurgencias e nem pedaços da cruz de Cristo mas vendem água ungida por não sei quem e oléos e coisas mais. Eu creio que devemos pregar o envangelio como Cristo nos ensinou. Nos dias atuais vemos que o ser humano está muito consumista e a maioria das pessoas buscam a DEUS por causa do dinheiro e não pra serem salvos. Os exemplos dos bispos presos em Miami é um exemplo claro disso. Como pessoas ditas segundo o coração de Deus e se dizem ungidas escondem dinheiro dentro de uma biblía com fundo falso com crianças?
Eles são inocentes?
Concordo que atráves deles muitos realmente se convertem e se entregam a Cristo mas na sua grande maioria estão lá por interesses pessoais e vejo que DEUS não é um ser pra ser procurado só na nossa alegria! Essa pessoas que ensinam que temos que cobrar de DEUS que não aceitamos a "pobreza" e que por sermos servos DELE temos que exirgir que sejamos ricos e que nada de mal venha nos acontecer! Assim então é muito facil ser Cristão e dizer amar a DEUS. Eu vejo que ser prospéro não é apeanas ter uma exelente situação financeira. Mas pra mim ser prospéro é saber viver com aquilo que DEUS lhe concedeu. Esses bispos ensinam e atraem pessoas somente através da prosperidade. Eu já tive o prazer de assistir algumas palestras ministradas pro eles e na sua maioria usam apenas versiculos e só falam de prospéridade. Eles não querem se enfiar lá no meio daquele povo que não tem riqueza alguma e nem educação lá da africa onde todos os anos vemos pessoas que morrem de fome e muitos deles vivem como animais.
Eles não vão lá pra o oriente medio falar de Cristo onde o terror reina por causa das guerras e brigas religiosas que se tem naquela região.
Então pastor Ari Freitas eu concordo com o Senhor que DEUS nos quer prospéros mas também que vejo que DEUS não quer a nossa riqueza e sim a nossa alma. Pois ele quer nos dar a vida eterna e não as riquezas desse mundo. Um exemplo claro é Jesus que mesmo sendo filho do Altissímo ele o colocou entre os humildes e o fez humilde e não o colocou entre os prospéros dessa terra.
E como já tive o prazer de assistir as várias palestras desses tais "apóstolos" a única coisa que vi é que eles ensinam a buscar a DEUS com a chantagem. "Senhor meu DEUS estou lhe dando tudo ou quase tudo que eu tenho então eu exirjo de ti que me faça um homem prospéro."
Ou seja usam DEUS pra se fazerem trocas e DEUS não é um comerciante e sim nosso pai criador. E que a cada dia devemos exalta-lo e adora-lo mais pois sem ele nada somos.

Pr. Wilson S. Bento disse...

Se formos analisar esta questão pelo ponto de vista pragmático, então temos um problema mais sério ainda.

"...conheço muitas igrejas que praticam essa teoria, crescem, ganham almas, conquistam vidas..."

Se o resultado é o fato de crescer ou de estar levando pessoas para a membresia da igreja estamos longe de poder discutir a questão principal que é o princípio bíblico que rege a constituição de uma igreja local.

Sendo por este perfil (pragmático), temos em Dallas a igreja que mais cresceu em 2006, "ganhando almas" e "conquistando vidas", somente que é uma igreja Metropolitan, que conhecidamente é formada e defensora da postura secularizada e pecaminosa de que pode-se constituir uma igreja com gays, membros e pastores gays.

Crescem e "ganham almas"...

Por favor vamos analisar pelo prisma da Palavra de não usando conceitos estranhos ao cerne cristão.

A teologia da prosperidade NÃO É BÍBLICA E COMO TAL DEVE SER TRATADA, o que procede daí nunca vai servir de referencial para testemunhar a favor de qualquer resultado ralmente espiritual. Muito pelo contrário tem sido um instrumento de escândalo e corrupção, deve ser banida dos púlpitos e do seio da igreja, isso se houver de fato uma igreja onde esta o púlpito!!!

Anônimo disse...

Shalom!
O que me entristece não esses "pilantras da fé" e sim pessoas que ainda são ATRAIDAS por eles....se eles fazem sucesso é pq tem gente que enche essas igrejas...e não são como os bereanos que buscam nas escrituras se aperfeiçoar no carater cristão e somente buscam a salvação de suas necessidades...Que o Eterno nos abençoe....Maranata!!!

paulo disse...

Paz.Fiquei admirado com teor desta mensagem,e desejo receber no meu email.