18 março 2007

Três movimentos.

Ricardo Gondim.

Hoje visitei o Hospital São Paulo da Universidade Federal. Convidado pelo grupo de capelania liderado por um pastor batista chamado Nino, caminhei pelos corredores da emergência, espiei a unidade semi-intensiva da pediatria e ainda tive tempo para falar para os doentes que conseguiram alcançar o auditório do décimo quinto andar.

Quando saí pelos quarteirões que me separavam do carro, fui invadido por um turbilhão de emoções, idéias, compaixão, revolta e fadiga. Já que também faço da escrita uma catarse, cá estou diante do teclado tentando exorcizar ou purificar-me – sei lá o que desejo fazer – do tumulto causado por uma casa de saúde brasileira; ninguém visita um hospital público no Brasil e consegue se manter o mesmo,

Antes, senhoras e senhores, lembremos que estive no hospital da Universidade Federal de Medicina da maior e mais rica cidade da América do Sul.

Minhas impressões da visita:

1. O movimento "evangélico" brasileiro, com seus pressupostos teológicos, com sua antropologia, com sua cosmovisão, com sua cristologia, com seu pragmatismo, é promotor de neuroses absurdamente disfuncionais, não tem como consolar pessoas carentes e, pior, causa vexames por onde passa.

Um cristão que desejar manter sua sanidade existencial ou estabelecer qualquer contato com o mundo, precisa pensar fora dos moldes da atual igreja "evangélica".

O pastor Nino me contou da dificuldade de aceitar voluntários "evangélicos" em condições de visitar os enfermos. Repetidamente ele é chamado a atenção pela diretoria do hospital, porque crentes, aos gritos, querem expulsar demônios "escondidos" debaixo dos leitos, ou oprimir com remorsos quem já sofre - fazem afirmações absurdas de que toda doença é fruto de pecados escondidos.

Ele me relatou o caso de uma senhora que pediu oração pelo filho doente a uma voluntária. A crente começou falando em línguas estranhas; no meio de sua prece, parou e disse para a mãe aflita: “Não posso continuar!, o pastor Nino não permite que eu fale esse tipo de coisa".

A mãe insistiu, desesperada: “Não faça isso comigo, não me deixe assim sem saber o que está acontecendo”. A irmãzinha sem nenhum senso, sem nenhuma graça, sem Deus e sem o seu Espírito, profetizou: “É que eu acabo de ter uma visão do seu filho, morto dentro de um caixão”. O resto da história, nem adianta comentar. Tétrico.

2. Por outro lado, saudei a grandeza de heroínas e de grandes homens da fé. Um punhado de gente reluz todos os sábados naquele hospital.

Algumas mulheres, com idade de serem minha mãe, corriam para cima e para baixo para não deixar ninguém sem uma visita antes do almoço.

Assisti a uma pequena apresentação de fantoche; enchi meus olhos de lágrimas quando uma paciente entrou no auditório amparada por dois senhores, puxando seu soro.

Quero celebrar esses anônimos que trabalham para o Reino e se dão para o próximo sem jamais esperarem qualquer galardão. Eles são o remanescente de Deus, fazem parte da grande nuvem de testemunhas que honram a fé; o mundo não é digno deles.



3. Finalmente, hoje me desiludi de uma vez por todas com o futuro do Brasil. Sou filho de um país fajuto; tenho vergonha de minha pátria.

Este hospital público estava lotado de macas que entupiam os corredores. Nelas vi meus patrícios doentes, estropiados em acidentes, vítimas de crimes; minha gente, que padecia com doenças agudas.

As macas eram enferrujadas, a maioria não tinha um mísero colchão fino. Meus compatriotas esperavam atendimento, deitados no ferro sujo.

Nino, então, me pediu ajuda para fazer uma campanha e comprar 60 colchões para a enfermaria. Perguntei-lhe quanto custava cada colchão. Displicentemente, respondeu-me: "Sessenta reais". – menos de trinta dólares, senhores deputados.

Comentei que no ano passado nossa igreja contribuiu com cerca de 300 cobertores para aquecer os pacientes das enfermarias daquele mesmo hospital. O capelão reagiu prontamente: - “Sim, agradeça a igreja Betesda pelos cobertores, eles são de grande valia até no verão”.

Sem entender o que ele queria dizer, perguntei: - Como? Cobertor no verão? De grande valia? O capelão me levou até um leito, puxou a ponta do lençol e constatei que muitos cobertores são dobrados para servirem de colchão. Fiquei indignado. Contive o ímpeto de falar uma palavra de baixo calão.

Sem querer, Nino fez transbordar minha revolta: “No ano passado as verbas do hospital foram cortadas pelo governo do PT para subsidiar o programa do Bolsa Família, considerado o único programa que podia garantir a reeleição do Lula". Aí, não teve jeito, o nome feio saiu forte e sem culpa.

Não acredito mais que o modelo dessa igreja "evangélica" que se espalhou em minha terra e se tornou hegemônico consiga cumprir, minimamente, a agenda do Reino de Deus.

Estou totalmente desencantado com o Brasil; com sua democracia; com seus partidos políticos; com seu judiciário; com seu poder legislativo; com suas polícias militar, civil e federal. O Brasil não tem mais jeito e, daqui para frente, despencará velozmente no abismo da violência, da miséria e do sofrimento.

O que vou fazer da minha vida? Continuarei visitando hospitais; incentivarei os “pastores Ninos” da vida; ensinarei os meus discípulos a viverem com integridade em seus círculos de influência e amizade; pregarei o que minha consciência me ensina sobre o Evangelho; tentarei viver com alegria ao redor de quem amo; e procurarei amenizar o sofrimento dos poucos que eu conseguir.

Isso foi o que restou de mim hoje.

Soli Deo Gloria.

12 março 2007

Autopsia de uma Fé

EDUARDO ROSA PEDREIRA, é pastor da Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca, professor de Ética Corporativa da FGV e autor do livro Inveja e Contentamento pela Editora Mundo Cristão

Desde a década de 60 a Igreja Evangélica Brasileira viu nascer dentro de si um movimento que tem sido chamado de novo pentecostalismo. Como qualquer outro fenômeno humano, este também é um feixe complexo no qual se entrecruzam, além da dimensão religiosa, as sociais, políticas, psíquicas e econômicas.Apesar desta complexidade, é necessário que tentemos descrevê-lo, ainda que parcialmente.

O "apóstolo" Estevam Hernandes e sua esposa, a "bispa" Sônia, líderes da Igreja Renascer, são, em muitos aspectos, uma síntese deste movimento. Ressalte-se enfaticamente que nem todas as igrejas e pastores neopentecostais podem ser medidos pela maneira como este casal tem vivido e pregado sua fé.

Todavia, não se pode negar que o "apóstolo" e a "bispa" trazem em sua trajetória a marca que tem caracterizado boa parte do mundo neopentecostal:
- líderes com um enorme carisma, dissociado de caráter e
- líderes alimentados por uma teologia do consumo e da prosperidade.

O carisma de atrair multidões e saber lidar com elas faz do líder de qualquer organização uma pessoa muito poderosa, e na igreja não é diferente!

Isto porque um líder com forte carisma é capaz de seduzir seguidores a ultrapassar até mesmo os limites do razoável, pois o senso crítico de um grupo de pessoas diminui na proporção exata da incidência do carisma do líder sobre ele.

O caráter, por sua vez, é a fronteira do carisma. É através dele que se resiste às armadilhas do carisma. Então, quando um se desliga do outro, o líder perde o seu crítico interior, destrói seu superego, ficando ao sabor do ego inflado pelos resultados advindos de sua liderança carismática.

Esta equação daninha de carisma sem caráter somente se sustenta no contexto da fé por que
ganha contornos divinos. É a chamada teologia da prosperidade, que justifica diante dos fiéis os abusos financeiros de um estilo de vida socialmente nababesco vivido por muitos deles. Prega-se dentro desta visão teológica que Deus deseja que os seus filhos prosperem, por isso, eles devem ofertar ao máximo, pois fazendo assim serão recompensados. Ou no limite de suas angústias ou puramente interessadas numa barganha sobrenatural na qual a bênção de Deus é comprada mediante o dízimo, pessoas vão embarcando nesta que é a curto, médio e longo prazos, uma canoa teologicamente furada. Obviamente que não para os líderes carismáticos pregadores de tal teologia que, diga-se de passagem, são os únicos realmente a prosperar, numa medida de milhões de reais.

A rigor, o quadro até aqui descrito não é novo, sendo já conhecido e tratado pela grande mídia.

A novidade do presente momento fica por conta das denúncias do Ministério Público paulista, que qualificam uma igreja como organização criminosa e responsabilizam seus líderes por ações ilícitas.Estas denúncias em si mesmas, independentemente do seu desfecho, devem constituir uma séria advertência a todos de que a falta de caráter no âmbito da fé poderá trazer sérias implicações judiciais para aqueles que ultrapassem os limites legais. Sendo assim, a cadeia não pode ser encarada nem como punição divina e nem uma armação do diabo (como têm insinuado os líderes da Igreja Renascer), mas sim uma conseqüência natural que deve se abater sobre todos os infratores da lei.

Em tudo isso, é curioso notar que um outro apóstolo, Tiago (este sim sem aspas!) escreve na Bíblia que a fé sem obras é morta. O que ele não disse, mas implícito está, é que uma fé morre não apenas pela ausência de obras, mas pela qualidade delas e dos meios usados para produzi-las.

Portanto, uma fé sem ética está morta apesar dos muitos resultados. E, uma vez morta, só nos
resta fazer sua autópsia e torcer pelo seu breve sepultamento, para então renascerem líderes que, com integridade, cumpram sua missão amando a Deus e a este povo tão sofrido!

Fonte: http://amaivos.uol.com.br/templates/amaivos/amaivos07/noticia/noticia.asp?cod_Canal=51&cod_noticia=8092