10 março 2017

PARA QUE UM GAY SEJA CRISTÃO TEM QUE REVERTER SUA ORIENTAÇÃO SEXUAL? Hermes C. Fernandes,


Hermes C. Fernandes, teu texto me fez lembrar da polêmica que envolveram Caio Fábio quando fez afirmações similares às suas e "revelou" que existem milhares de evangélicos em nossas igrejas que tem atração por pessoas do mesmo sexo. Em meio a toda aquela parafernália escrevi ao Caio para fazer a ele uma pergunta. "Homossexualismo é pecado?" Ele respondeu: "Claro que é!" 

Minha pergunta e a resposta dele encerraram o assunto para mim. Não me interprete mal por ter feito apenas esta pergunta e ter me dado por satisfeito com a resposta. É que "rotular o pecado" não deveria me levar a discriminar e rejeitar ninguém, se assim for, devo rejeitar e discriminar a mim mesmo por uma razão ou outra. 

Afirmar que adultério, fornicação, e a lista é grande, são pecados não me autoriza a discriminar e condenar as pessoas, mesmo porque cada um de nós pecamos em uma coisa ou outra. 

Você também pensa claramente que a prática homossexual, divórcio e outras exemplificadas em teu texto são pecados, mas sem ficar paralisado pelo "fatalismo evangélico"  você sobeja Amor de uma maneira muito abundante, demonstrando muita misericórdia e compreensão especialmente para com aqueles que sofrem com batalhas inimagináveis com a sexualidade e convida-nos todos a agirmos do mesmo modo! Cheios de amor, misericórdia e compreensão. 

Examinei tudo o que escreveu e retive o que é bom! Do que é bom teu texto abunda. Que prazer ler pela manhã um texto como este!

Josimar Salum

PARA QUE UM GAY SEJA CRISTÃO TEM QUE REVERTER SUA ORIENTAÇÃO SEXUAL? 

Em meados de 2015, uma das mais badaladas igrejas do mundo protagonizou outro escândalo (Sim, não foi o primeiro!). Segundo uma matéria divulgada nas redes sociais, a Hillsong teria ordenado um casal de homossexuais como ministros de louvor de sua filial em Nova Iorque. Em menos de vinte e quatro horas, o pastor Brian Houston, presidente da igreja australiana, veio a público desmentir a matéria, afirmando que sua posição quanto à prática homossexual seguia a ortodoxia evangélica, e que, tão logo os dois ministros de louvor admitiram seu relacionamento, foram afastados de seus postos. Ficou a impressão de que, se eles não houvessem assumido sua orientação sexual e seu relacionamento não se tornasse público, teriam sido mantidos no cargo. Sem querer emitir juízo de valor, confesso meu desconforto com posturas que beiram a hipocrisia. É cada vez mais rara uma igreja em que não haja homossexuais envolvidos diretamente com ministérios de louvor, dança ou teatro. Se eles se comportarem direitinho, ninguém vai implicar. Mas se forem atrevidos o bastante para assumir o que são, correm o risco de não apenas serem removidos do cargo, mas também serem excluídos do rol de membros da igreja. Estamos mais preocupados com a língua do povo e com a nossa reputação do que em comprar a briga deste segmento tão sofrido e discriminado.

Deixe-me relatar a conversa que tive com um colega de turma durante meu tempo de faculdade. Um rapaz com inteligência acima da média. Não raramente roubava a cena durante a aula, explicando a matéria com mais desenvoltura que o próprio professor. Ele era gay e já havia sido evangélico. Num dia em que a professora atrasou-se para aula, tivemos a oportunidade de trocar ideias. Ele me confessou ter sido criado na igreja, chegando a ser presidente do grupo jovem. Quando se percebeu homossexual, lutou bravamente para libertar-se (sic). Jejuou por um ano inteiro. Orou. Chorou. Participou de reuniões de libertação. Submeteu-se a sessões de exorcismo. Mas, nada. Ele continuava sentindo-se atraído por pessoas do mesmo sexo. Vendo que a igreja não se dispunha a acolher quem se assumisse como gay, ele resolveu se afastar. Aparentemente emocionado, contou-me que tentou recorrer a outras religiões. Frequentou centro de umbanda, templo budista, reuniões kardecistas, mas não conseguiu se achar. “O problema é que sou cristão”, confidenciou-me.

Desde que comecei a escrever sobre o tema em meu blog, já recebi muitos e-mails e mensagens in box de pessoas em crise por causa de sua orientação sexual. Algumas considerando tirar a própria vida, outras já teriam tentado suicídio várias vezes. É fácil julgar moralmente quando se coloca de lado o coração. Mas quando a gente se aproxima desprovido de preconceito, o coração se enternece. Principalmente quando se trata de um adolescente. “Poderia ser um filho meu”, ponderamos. 

O que dizer a esses indivíduos? Que não tiveram fé suficiente para se libertarem? Que não amam a Cristo o bastante para renunciar seus sentimentos “pervertidos”? Que encabeçam a lista dos que serão lançados no inferno?

Não reconheço área mais complexa da natureza humana do que a sexualidade. Quanto mais busco compreendê-la, mas percebo quão rasas são as abordagens que tentam dissecá-la. A situação se agrava quando adentramos a questão da diversidade sexual.

Respostas prontas ofendem a sensibilidade e a inteligência dos que se debruçam sobre o assunto. Já ouvi inúmeras vezes o argumento de que se Deus aprovasse a homossexualidade, não teria criado Adão e Eva, mas Adão e Ivo. De fato, só existem dois gêneros sexuais: macho e fêmea. Porém, os espinhos, cardos e abrolhos que passaram a crescer em nosso habitat desde o evento que a teologia chama de “queda”, também brotaram na própria natureza humana, afetando seus relacionamentos, seu comportamento, seu psiquismo. O mundo ideal ficou atrás do portão do paraíso. Condenados ao exílio, os humanos tiveram que aprender a lidar com as demandas de um mundo real, por vezes hostil à sua presença.

Sabiamente, Jesus nos descortina esta realidade ao abordar um dos mais delicados assuntos no campo do relacionamento humano: o divórcio. Segundo o mestre galileu, o divórcio não constava do plano original do Criador. Ele não apenas o reprova, como também o detesta.  Mesmo assim, nos dias de Jesus, o divórcio havia se banalizado. Os homens estavam despedindo suas esposas por qualquer bobagem, e se justificavam na autorização dada por Deus através de Moisés. 

Perguntado se era lícito ao homem divorciar-se da mulher por qualquer motivo, Jesus respondeu:

“Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. Disseram-lhe eles: Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la? Disse-lhes ele: Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim.” Mateus 19:4-8

Repare na última frase: “ao princípio não foi assim.” O divórcio foi uma concessão divina em resposta a uma demanda humana em seu trânsito pelo mundo real. Não significa que Deus endosse tal prática. Porém, Jesus reconheceu a necessidade desta alternativa frente à dureza da condição humana. Dizer que nem sempre foi assim equivale a afirmar que este não é o ideal de Deus para o ser humano. O ideal é que ele se case e continue casado com a mesma pessoa até o fim. O ideal é que o casamento seja monogâmico, indissolúvel e entre pessoas de sexos opostos. Todavia, nem sempre é isso que acontece. Temos, portanto, que tratar a situação de maneira realista, levando em conta todas as suas nuances.

Desde que atravessamos os portões do Éden, tantas coisas mudaram. E provavelmente, nenhum outro campo sofreu tantas alterações quanto o dos relacionamentos.

Recebi um comentário em meu blog que me chamou a atenção. Resolvi compartilhá-lo na timeline do meu perfil no facebook para saber o que as pessoas pensavam sobre o argumento apresentado; o que acabou originando um debate que me desafiou a pensar um pouco mais sobre o tema. Reproduzo abaixo o comentário postado por um anônimo:

"Diante destas investidas satânicas, fico a imaginar: o que seria da humanidade sem o nascimento de figuras ilustres e que, de fato, trouxeram algo de bom, de construtivo para a humanidade. Figuras como Albert Einstein, maior cientista do século XX, Martin Luther King, o símbolo máximo da luta contra uma das pragas do século XX, o racismo, Henry Ford, Ludwig van Beethoven, compositor alemão, enfim, a lista é imensa e nas mais diversas áreas do conhecimento humano. Será que estas pessoas nasceram do nada? Ou nasceram de chocadeira? Com certeza que não, nasceram de um relacionamento amoroso entre um homem e uma mulher! NASCERAM no seio de uma família tradicional. Ainda dentro do meu círculo imaginário, pensei: e se a MÃE ou PAI destes defensores desta abominável aberração (DIVERSIDADE SEXUAL) tivessem optado por serem GAYS. Conclui que uma coisa seria certa, não estaria eu, neste momento, perdendo o meu tempo precioso escrevendo este texto”(sic).

Imagino o prazer sentido pelo comentarista ao achar que estava dando a palavra final sobre a questão. Confesso que não perderia tempo respondendo a este infeliz comentário se não verificasse que é exatamente assim que muitos pensam.

Ora, o argumento usado poderia ser aplicado também em casos de esterilidade. Quem é incapaz de conceber filhos não teria o direito de se casar? Somente a concepção de uma prole justificaria nossa passagem por este mundo? E quanto aos celibatários? Quem opta pelo celibato estaria desperdiçando a vida? Convém lembrar de que o próprio Jesus era celibatário, juntamente com Paulo, João Batista e tantos outros. Portanto, se quiser combater a diversidade sexual terá que apelar a um argumento mais sólido e razoável.

Ademais, temos que admitir que graças ao fato de muitos não poderem ter filhos biológicos, tantas crianças órfãs ou abandonadas puderam ser adotadas. 

Quanto à diversidade sexual em si, devemos considerar que muitos personagens proeminentes da história foram homossexuais. Não nos deixaram filhos, porém, deixaram-nos um legado valioso. Um exemplo disso foi Santos Dumont, de quem todo brasileiro se orgulha por ter inventado o avião, além do relógio de pulso (espero que ninguém resolva boicotar nenhum dos dois...rs). O pai da viação acabou se suicidando. Segundo alguns dos seus biógrafos, por ver sua invenção usada como arma na primeira grande guerra. Mas para outros, o que o teria levado ao suicídio foi uma depressão profunda devido aos conflitos na área da sexualidade.

Alan Turing, matemático e cientista da computação foi um dos responsáveis pela formalização do conceito de algoritmo, base da teoria da computação. Também foi o inventor da Máquina de Turing, precursora do computador moderno. Em sua condição de homossexual, Turing não deixou herdeiros, mas deixou um legado e tanto. Consegue imaginar um mundo sem computador?

Falta-me tempo e disposição para falar de tantos outros como o gênio Leonardo da Vinci, o conquistador Alexandre, o Grande, e Sócrates, o pai da filosofia clássica. Portanto, não se deve julgar o caráter ou a genialidade de um ser humano por sua orientação sexual.

Enquanto expunha tais fatos em minha timeline, surgiram várias questões. Uma recorrente é se acredito que um homossexual possa ter sua orientação sexual transformada. Em outras palavras, se um gay pode vir a se tornar heterossexual.

Primeiro, quero deixar claro que para Deus tudo é possível. Se Ele quiser, pode fazer nascer cabelo em careca, fazer um branco tornar-se negro ou vice-versa, e até possibilitar que um animal fale. Porém, tenho minhas dúvidas se haja n’Ele interesse de realizar tais proezas.

O que me cansa é ver a exploração que se faz em cima do testemunho de pessoas que teriam sido homossexuais e que agora exibem seus cônjuges e filhos como prova de que foram transformadas.

É um crime impor a um gay que mude sua orientação sexual para evidenciar sua conversão. Conheço casos em que a pessoa contraiu matrimônio por pressão da igreja, e tempos depois não havia nem sequer consumado o ato. Nesses casos, acho bem mais louvável que se abdique voluntariamente de uma vida sexual ativa por amor à causa do evangelho. É mais honesto do que forjar uma transformação. Porém, isso jamais deveria ser imposto a ninguém. É desumano.

Há, todavia, casos de pseudo-homossexuais que se tornaram o que, no fundo, jamais deixaram de ser: héteros. Algumas delas se lançaram na prática homossexual devido a contingências tais como abusos sofridos na infância, influências externas como amigos, mídia, cultura, educação, etc., mas jamais perderam o desejo por pessoas do outro sexo. Muitas acabam adotando um comportamento bissexual. Porém, em boa parte das vezes, o que ocorre é que a pessoa anuncia ter sido transformada, casa-se com alguém do sexo oposto, mas segue nutrindo desejos inconfessáveis por pessoas do mesmo sexo. Não ouso por em xeque sua conversão. Elas amam a Cristo e sentem-se amarguradas por terem que lidar com tais pulsões. Se ao menos a igreja fosse mais complacente, não haveria necessidade disso.

A igreja deveria ser aquele lugar de que Paulo fala: “Onde está o Espírito de Deus, aí há liberdade.”  Não se trata de liberdade para viver promiscuamente, mas para ser o que se é, sem medo de ser rejeitado, olhado com nojo e preconceito. Em vez disso, a igreja se tornou num antro de discriminação. Os púlpitos destilam homofobia, e tudo, cínica e ironicamente em nome do amor.

Há, ainda, uma falácia que tem sido disseminada principalmente por pregadores televisivos: a de que ninguém nasce gay. E isso geralmente é dito como se fosse cientificamente comprovado. Para quem vive refém do ambiente eclesiástico, uma declaração como esta, não influi, nem contribui. Mas quem transita por outros ambientes, principalmente o acadêmico, tem que aturar piadinhas e insinuações grosseiras por conta deste tipo de posicionamento anacrônico e infundado.  

Se não quiserem dar ouvidos às últimas descobertas científicas, que ouçam o próprio Jesus que afirma haver ao menos três classes de eunucos: os que foram feitos eunucos (castrados para que pudessem cuidar dos haréns dos reis sem se constituir ameaça à integridade da rainha e de suas concubinas), os que se faziam eunucos pelo reino de Deus (celibatários como Paulo) e os que nasciam nesta condição, isto é, desprovidos de desejo por pessoas do sexo oposto. Os eunucos eram, em geral, homossexuais.  Portanto, segundo Jesus, a homossexualidade pode sim ser de nascença.

No debate que fomentei no facebook, perguntaram-me se eu não pregava contra o homossexualismo e lesbianismo (sic). Respondi que prego contra o pecado que há em nós, em nossa natureza corrompida, e que se manifesta tanto na vida do homossexual, quanto na vida do heterossexual. Mas me recuso a entrar nesta campanha sórdida que alguns setores da igreja evangélica têm travado contra os gays, e que, no fundo, tem cunho político. Descobriram aí uma mina de votos. Se amassem mais às almas do que os votos, olhariam para a causa do homossexual com mais compaixão e amor, em vez de fomentarem tanto preconceito e ódio.

Repito: creio que por amor a Cristo, tanto o gay, quanto o hétero, podem ofertar sua sexualidade, isto é, renunciar suas pulsões para dedicarem-se exclusivamente à causa do reino de Deus. Porém, não me vejo capaz de impor isso a ninguém. Paulo dizia que gostaria que todos fossem como ele, porém, reconhecia que cada um tinha recebido de Deus o seu próprio dom.  Portanto, acredito num celibato consciente, fruto do amor e não de imposição de terceiros. O que me recuso a acreditar é que alguém possa mudar sua orientação sexual mediante pressões externas.

E, sinceramente, creio que a existência do homossexual serve a um propósito divino: por à prova nosso amor e desafiar nossos preconceitos.

Se Deus pode mudá-los? Quem sou eu para limitar o seu poder? Ele também podia ter removido o espinho que havia na carne de Paulo, mas não o fez, alegando que sua graça deveria ser-lhe suficiente. 

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HERMES CARVALHO FERNANDES 
BRADESCO 
Agência 2649
C/C 6676-1

Um comentário:

Luciano Bezerra disse...

Finalmente o sr.Hermes Carvalho botou pimenta na maior ferida da igreja evangélica: discutir a homossexualidade sem julgar esses "pecadores" e condená-los ao fogo eterno sem direito à defesa da causa desse comportamento e so mesmo tempo dando uma saída que seria o celibato por amor a Cristo...Dura escolha.